
Fotografia: Emídio Jozine
O sul de Moçambique e partes do Zimbabwe e da África do Sul estiveram – e algumas
ainda estão – novamente submersas. Por ser um país a jusante, Moçambique é um dos
países do mundo mais vulneráveis às mudanças climáticas. Hoje em dia, esta realidade é
vivida pelo nosso povo praticamente todos os anos. Mais de 150 pessoas morreram e 400
mil ficaram desalojadas, com um total de quase 1 milhão de afectados, devido às graves
cheias que ocorreram em Janeiro de 2026.
No ano 2000, o país sofreu outras cheias terríveis, e a imagem icónica dessas cheias foi a
de uma bebé que nasceu em cima de uma árvore antes de ser resgatada. O país e o
mundo acompanharam esta história. Não obstante toda a atenção mediática e apoio, Rosita
Pedro morreu no mês passado, aos 25 anos, de doenças tratáveis. É impossível não pensar
em tantas outras pessoas que continuam a morrer por todo o país como consequência de
um Estado com as prioridades trocadas.
Nas cheias deste ano a história repetiu-se, com mais alguns “bebés-milagre”. Uma menina
nasceu no dia 19 de Janeiro, na mesa de uma escola na aldeia 3 de Fevereiro, no distrito
de Manhiça, província de Maputo. A sua mãe, Erica Raimundo Mimbir, deu-lhe o nome de
Rosita, certamente na esperança que ela tenha uma vida mais longa que a bebé milagrosa
de 2000.
A gravidade destas cheias era conhecida há muitos meses, pelo menos desde setembro de 2025. Esperavam-se chuvas fortes. As barragens da região estavam em alerta máximo e,
como de costume, acabaram por contribuir para agravar o desastre, em vez de o mitigar. O
nosso governo foi negligente: as equipas de resposta a emergências não estavam no local,
as pessoas que já viviam em áreas de pobreza e alto risco não receberam os recursos
necessários para conseguir sobreviver. Onde estavam os planos de evacuação, a
preparação de espaços públicos e privados para alojar os deslocados, as informações
práticas sobre onde devemos ir para ficar seguros quando a água começar a invadir as
nossas casas?
“Vivemos todos a jusante” é uma componente essencial da ética de justiça ambiental,
destacando os princípios da responsabilidade ambiental e da gestão ecológica, a nossa
interligação como povos e ecologia. O nosso ubuntu. É o reconhecimento de que o que uns
fazem, afecta todos, e por várias gerações. Na JA!, estamos focados em construir poder
popular em todo o país, no continente e no mundo para desmantelar os diferentes sistemas
que nos oprimem – como o capitalismo, o racismo, o patriarcado. Não criámos a JA! com o
intuito de ser uma associação de ajuda humanitária. No entanto, a crise agrava-se
diariamente, afectando os nossos vizinhos, as nossas famílias, as nossas próprias casas.

Depois de visitar alguns locais na cidade de Maputo que acolhem sobreviventes das cheias,
decidimos concentrar o nosso apoio inicial na Escola Mariazinha, no bairro Hulene A. Já
levámos provisões e os nossos tachos e panelas gigantes algumas vezes, organizando uma
cozinha solidária e comendo com mais de 100 adultos e crianças de cada vez. Muitos ainda
estão abrigados na escola, semanas depois, com as suas casas ainda submersas.
Sabemos que esta emergência não é o fim desta luta, e portanto mesmo enquanto
contribuímos para satisfazer necessidades básicas, estamos a avaliar os próximos passos
com a comunidade – discutindo o que pode ser feito para mudar as condições no terreno.
Uma intervenção junto ao Conselho Municipal para exigir que bombeiem a água que está ali
acumulada, denunciar a corrupção que se verifica nas equipas de socorro de emergência, e
organizar limpezas comunitárias nas ruas estão entre as ideias que emergiram das próprias
pessoas afectadas. Entretanto, companheiros e parceiros de todo o mundo estão prontos
para se mobilizar e apoiar os seus irmãos e irmãs Moçambicanas, mas receber esta
solidariedade também significa navegar por burocracias que foram concebidas para nos
manter separados: barreiras na obtenção de vistos, custos de hospedagem, infraestrutura
estatal inexistente para coordenar o apoio internacional. O nosso governo tornou-se tão
viciado nos ciclos de dívida internacional com predadores neoliberais que se esqueceu da
importância da verdadeira solidariedade internacionalista em momentos de crise – algo que
foi tão crucial na nossa luta de libertação contra o regime colonial Português. O nosso
governo também parece esquecer que, apesar de Moçambique estar na linha da frente dos
impactos da catástrofe climática, não contribuímos quase nada para as emissões globais de
gases de efeito de estufa, a principal causa das mudanças climáticas. Não temos que ir
implorar nos espaços internacionais, não precisamos de caridade – temos, sim, direito ao
pagamento de uma dívida climática por parte dos países que mais poluíram.
Mas temos que ser claros: não termos causado a crise climática não significa que podemos
repetir os erros do capitalismo fóssil. Pelo contrário, temos a responsabilidade de fazer
diferente e melhor. Temos a obrigação de acabar com a exploração de combustíveis fósseis
que só enriquece as transnacionais petrolíferas, e escolher um caminho que garanta a
nossa soberania energética—energia limpa controlada pelas nossas comunidades, não
pelas corporações. O modelo actual foi desenhado para extrair e acumular riqueza:
extractivista, colonial, insustentável. Está contra a vida e contra o futuro.
As múltiplas crises inter-relacionadas só vão continuar a piorar. Mas não somos só vítimas:
somos agentes de mudança. As comunidades organizadas e unidas são capazes de agir
para melhorar a sua vida hoje e também a longo prazo. E é por acreditarmos nisso que
priorizamos a construção e fortalecimento de movimentos a nível local, mas também
internacional. A JA! faz parte, entre outras redes e alianças, da criação do movimento
internacional de comunidades afectadas por barragens e pela crise climática, lançado em
Belém em Novembro de 2025, que reúne pessoas e colectivos de todos os continentes,
unidas na luta pelos seus direitos e por uma mudança de sistema.
Se sabemos que as águas vão subir, temos de trabalhar juntos para aprender a nadar,
construir barcos, construir comunidades, exigir mudanças. À medida que as águas sobem,
nós também temos de subir. A nossa sobrevivência colectiva depende disso.
