
“Fomos enganados”
A Justiça Ambiental, Missão Tabita e Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais (WRM)
organizaram mais um importante momento de intercambio e partilha de experiencias, que
teve lugar na Comunidade de Parrei, no Posto Administrativo de Mugulama. Os
companheiros da Comunidade de Mugulama receberam com muito interesse e entusiasmo
a visita de companheiros das Províncias de Nampula (afectadas pelas plantações da Green
Resources), Manica (afectadas pelas plantações da Portucel Moçambique) e da Província
da Zambézia (afectadas pelas plantações da Portucel Moçambique e da Mozambique
Holdings).

Os membros da comunidade de Mugulama tiveram a oportunidade de partilhar a sua
experiencia desde a entrada da Portucel Moçambique no seu território, explicaram que na
altura a comunidade acreditou nas inúmeras promessas feitas, acreditaram que teriam
empregos, acreditaram que a empresa iria realmente construir as escolas, hospital e outras
infraestruturas que tanto prometeram e que foi o que realmente fez a comunidade aceitar.
Hoje, a maioria dos membros da comunidade já se fartaram de esperar pela tão prometida
vida melhor, já não acreditam na Portucel, nada nas suas vidas melhorou, pelo contrário
partilham historias tristes de sistemáticos abusos de poder, violação de direitos,
insegurança, perda de meios de subsistência e continuam sem opções, sem empregos e
sem terra. Hoje muitos já até perderam o respeito e o medo dos tão temidos “agentes de
ligação” da Portucel, os que vão as casas de membros das comunidades que reclamam,
que se queixam, que levantam a sua voz contra as mentiras da Portucel e gritam que foram
enganados questionar e intimidar para que se calem. Os relatos são inúmeros, e enquanto
os membros da comunidade de Parreie relatam alguns episódios, os companheiros e
companheiras das demais comunidades trazem mais e mais episódios em outras
comunidades, até com outras empresas mas com os mesmos abusos, a mesma falta de
respeito, as mesmas mentiras e a mesma exploração de pessoas e recursos.
Em Mugulama, e em outras partes da província da Zambézia, a Portucel já começou a
cortar os eucaliptos, e as comunidades julgaram que uma vez cortado teriam finalmente de
volta as suas terras, de que dependem diretamente, no entanto, a Portucel esclareceu
rapidamente a todos que vai voltar a plantar e a terra lhes pertence. Esta informação
revoltou muitos membros da comunidade e alguns vendo as terras livres dos eucaliptos
rapidamente voltaram a trabalhar as mesmas e a preparar para o plantio. Estes foram
visitados pelos tão famosos agentes de ligação e alguns membros influentes das mesmas
comunidades dos poucos que ganham alguma coisa com a presença da empresa, e foram
avisados novamente que a terra pertence a Portucel, e que todos que ousassem ocupar
seriam presos… alguns foram ate avisados que aqui se morre! Mas muitos estão revoltados,
firmes que vão ocupar as suas terras, afirmaram que não roubaram nada, foram enganados
e arrancaram as suas terras, agora não querem mais nada com a Portucel.
As queixas e a revolta não se resumem apenas ao incumprimento de promessas ou de
como as próprias empresas justificam de expectativas infundadas ou excessivas, mas de
um claro e visível empobrecimento destas comunidades, de uma total desconsideração
pelos seus modos de vida, pela sua estreita relação com a terra, estas não só não viram
nada dos que lhes foi prometido, como perderam o pouco que ainda tinham, como a sua
terra, a sua fonte de rendimento, as matas de que tanto dependiam, o acesso a agua,
perderam os seus territórios.

Neste encontro as vozes das mulheres soaram mais alto do que nunca, o impacto destas
plantações nas suas vidas tem sido considerável, são as mulheres que cuidam da família, e
por isso e sobre elas que recai o peso de assegurar agua, alimento e cuidados, e com a
entrada das plantações, estas veem se muitas vezes sem opções e referiram ainda que

muitas vezes têm de usar os seus corpos como moeda de troca, seja para conseguir
emprego, seja para alcançar as metas impostas nos poucos empregos disponíveis, falaram
ainda da insegurança para as mulheres e meninas nas áreas com plantação, mais uma vez
os seus corpos são usados e abusados…

Ouvimos ainda casos de resistência, onde membros de diferentes comunidades recusaram
a entrada das plantações nas suas áreas, recusaram o plantio nas suas terras, e outros
ainda que já ocuparam as suas terras, apos o corte dos eucaliptos da Portucel.
“Estamos Cansados! Estamos muito cansados. Estamos a informar agora que se ouvirem
que aqui a cadeia esta cheia, somos nos, que já levamos as nossas terras!” – afectado
“Se for para morrer, vamos morrer, nos somos daqui, esta terra e nossa, foram nossos
antepassados que nos deixaram, não fomos la em Portugal roubar de ninguém, então
vamos ocupar nossas terras!” – afectado
A luta continua!
Nossa terra, nossa vida